para L. Cohen
Olhava seu reflexo no vidro do carro. Parecia me distanciar do momento em que vivia, enxergando o vidro como se fosse uma pequena tela de cinema. Você-reflexo gesticulando, retirando a mão do volante esporadicamente, sorrindo. O sol ainda estava baixo, era muito cedo. A luz ofuscava a minha visão, tudo virava uma névoa amarela, quase branca. Comecei a inventar um enredo para a sua imagem. Viajávamos sem rumo para o norte, era a única coisa de que sabíamos. Não surgiam perguntas como para onde iríamos, o motivo de estarmos fazendo aquilo, se havia algo planejado. Nada. Apenas comentávamos sobre a paisagem, como gostávamos do deserto, a sensação de infinitude, a cor da areia, a vegetação bruta. Era quase como morrer. Sugeri que abandonássemos o carro e andássemos a pé pelo deserto. Você titubeou, em um primeiro momento. Depois me olhou fixamente, percebendo que eu estava falando sério. Aceitou, sentindo um pouco de medo, ainda que estivesse visivelmente ansioso em se perder. O sol já estava a pino. Demoramos um longo momento contemplando diretamente aquela luz intensa. A vista ficou turva, doíam os olhos, o calor já estava insuportável, mas era impossível desvencilhar daquilo. Estávamos cegos. Demo-nos as mãos e começamos a andar deserto adentro.