Zênite

para L. Cohen

Olhava seu reflexo no vidro do carro. Parecia me distanciar do momento em que vivia, enxergando o vidro como se fosse uma pequena tela de cinema. Você-reflexo gesticulando, retirando a mão do volante esporadicamente, sorrindo. O sol ainda estava baixo, era muito cedo. A luz ofuscava a minha visão, tudo virava uma névoa amarela, quase branca. Comecei a inventar um enredo para a sua imagem. Viajávamos sem rumo para o norte, era a única coisa de que sabíamos. Não surgiam perguntas como para onde iríamos, o motivo de estarmos fazendo aquilo, se havia algo planejado. Nada. Apenas comentávamos sobre a paisagem, como gostávamos do deserto, a sensação de infinitude, a cor da areia, a vegetação bruta.  Era quase como morrer. Sugeri que abandonássemos o carro e andássemos a pé pelo deserto. Você titubeou, em um primeiro momento. Depois me olhou fixamente, percebendo que eu estava falando sério. Aceitou, sentindo um pouco de medo, ainda que estivesse visivelmente ansioso em se perder. O sol já estava a pino. Demoramos um longo momento contemplando diretamente aquela luz intensa. A vista ficou turva, doíam os olhos, o calor já estava insuportável, mas era impossível desvencilhar daquilo. Estávamos cegos. Demo-nos as mãos e começamos a andar deserto adentro.

“perco os seus sinais, minha agonia, haste sem bandeira fixada numa lua branca e solitária, navio cargueiro derrubando a seco, coração no oco da palavra.” (p. 93)

“e se perdi o meu pequeno planeta no bolso de uma calça que mandei lavar foi por causa desse apego a detalhes

velhos poentes enormes” (p. 96)

“porque um ó miúdo apareceu nessa hora, que é que fica, onde foi que te perdi minha asma-nome, câmara clara, como foste escapulir de mim, dia fatal sempre o seguinte, e ainda o outro, a sucessão mecânica” (p. 98)

 

RAMOS, N. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2008.

interlúdio

deitada em minha cama, sentia-me livre nos poucos segundos que existem entre o despertar e o momento em que se toma consciência de onde estou, quem sou, em que tempo me insiro. é nesse interlúdio que me sinto viva, sinto que tudo é possível, sinto que as dores que me afligem na verdade não existem, sinto a grandeza do mundo me tocar. a realidade se ficcionaliza. tento sustentar o momento, a ilusão, ao máximo, antes que caia vertiginosamente ao subterrâneo, onde é imperativo que me rasteje na lama de todos os infortúnios.

Sentou-se ao meu lado procurando um assunto, cheia de tato, daquele jeito que pessoas sadias, sem compreender a loucura, tentam achar um meio termo, uma nova forma de expressão para conversar com os loucos. Percebia nitidamente a sua dificuldade, como por dentro procurava incessantemente por um tópico de conversa neutro, uma nova linguagem. Optou por perguntar do meu trabalho. “Está bem”. Ela tremeu com a minha resposta breve, sem abertura para a continuação do assunto. Novamente procurou por outro tema, sem sucesso. Levantei-me sorrindo, pedindo licença. Eram todos assim, todos sem saber muito bem como lidar com a minha presença. Às vezes era divertido causar esse incômodo, em outras era apenas cansativo, triste por ser deixada de lado, ou ser vista como um ser que não se encaixa na ordem natural das coisas.