Alguns dias são piores que outros. Fiz tudo que sempre faço em todos os dias. Acordei sentindo muito calor. Virei-me para a janela e percebi pelo céu ainda escuro que havia acordado cedo demais. Confirmei com o relógio que deixo ao meu lado que, sim, ainda poderia dormir um pouco mais, eram apenas cinco horas da manhã. Com dificuldade, sentei-me na cama, abri a janela e me joguei na cama abruptamente, sentindo a brisa das primeiras horas da manhã batendo em minha pele nua. Adormeci um sono estranho, por estar preocupada em não perder a hora. Acordei novamente às cinco e meia. Forcei-me a levantar. Ergui o tronco com esforço e sentei-me na beirada da cama por alguns segundos, ainda um pouco ébria dos sonhos descontinuados dos minutos anteriores. Sempre gostei desses primeiros momentos da manhã. Fechei a janela, cobri-me para atravessar o corredor, afaguei o pelo dos dois gatos que estavam me esperando na porta do meu quarto e fui ao banheiro. Sentei-me na privada e fiquei pensando nas descrições de Sylvia Plath em seu diário sobre a primeira urina do dia. Tomei banho, vagarosamente, lavando as costas com força para massagear os músculos tensos. Sequei-me, lavei os óculos e vesti minhas roupas. Tomei café da manhã com a minha mãe sem sentir muito o gosto do que estava comendo, escovei os dentes, penteei o cabelo e desci correndo as escadas depois de ouvir a buzina da minha carona. De casa até a faculdade, passei o tempo inteiro ouvindo músicas em um volume ensurdecedor – gosto de ouvir músicas nesse momento, de estar parada e não fazendo nada além de ouvir. Cheguei ao meu prédio e me dirigi imediatamente à sala de aula. Havia chegado cedo demais e sentei-me no banco, lendo um livro, aguardando o professor. Duas páginas e meia depois, minha amiga chega, senta a minha frente e me conta como foi o seu último (e difícil) fim de semana. Não sabia muito bem o que lhe dizer, não sabia quais palavras de conforto seriam adequadas. Tentei dizer o que eu entendia daquele assunto (eu a entendia de alguma forma e sofria por ela). Minha outra amiga chegou, deixando o ambiente um pouco mais solar, seguida do professor. As aulas correram normalmente, nada extraordinário aconteceu e provavelmente não acontecerá. Apenas uma tristeza aguda, sem uma causa imediata – ainda que bastante justificável, depois de tantas atribulações nos últimos meses. Porém hoje, especialmente hoje, a sensação era de que tudo de ruim e difícil havia acontecido ontem. Culpa, medo, dor, dor física, cansaço, nostalgia. Chorei, um choro meio acanhado, silencioso, um choro sofrido que sai aos poucos. Um choro que não era só meu, parecia. Não era um lamento individual. Envolvia mais. Envolvia as perdas e todo o sofrimento com uma névoa que o tempo está deixando. Envolvia culpa. Envolvia saudade, memórias. Envolvia outras pessoas. Envolvia ainda a negação, de não me deixar sucumbir, de tentar alcançar um equilíbrio. E um cansaço, um cansaço imenso.
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